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Escalada da guerra pressiona mercado global de petróleo e reacende debate sobre autonomia energética

21.05.2026

 

“O petróleo é um recurso finito e o consumo é ininterrupto”, alerta o professor das áreas de Direito e Relações Internacionais da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), sobre as novas especulações em torno de uma possível escassez de combustíveis.

A continuidade do conflito no Oriente Médio e a interrupção das operações no Estreito de Ormuz aumentaram a preocupação internacional com possíveis impactos no abastecimento global de petróleo. O cenário mobiliza governos, agências de energia e o mercado financeiro diante da diminuição das reservas estratégicas e das dificuldades logísticas em uma das regiões mais importantes para o transporte mundial de combustíveis.

Dados da Agência Internacional de Energia (AIE) indicam que os estoques comerciais vêm sendo reduzidos rapidamente, enquanto as reservas emergenciais utilizadas para conter os efeitos da crise possuem capacidade limitada. A instabilidade já provoca reflexos nas projeções econômicas globais, pressiona expectativas de inflação e amplia a preocupação com a capacidade de reposição da oferta afetada no Golfo Pérsico.

O temor de novas filas em postos de combustíveis voltou a circular diante da escalada do conflito. Embora especialistas não apontem um colapso imediato no abastecimento brasileiro, a continuidade da guerra e a instabilidade logística já pressionam o mercado internacional.

Segundo reportagem publicada pela CNN Brasil com informações da Reuters, o mundo encerrou 2025 com cerca de 2,5 bilhões de barris em reservas estratégicas. O volume equivale a pouco mais de um mês de consumo dos dez países que mais utilizam petróleo no planeta.

A matéria destaca que o cenário se agravou após a intensificação do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, além da manutenção do fechamento do Estreito de Ormuz — corredor marítimo por onde passa parcela significativa da produção mundial de petróleo.

Para o professor Ricardo Boff, a crise expõe uma combinação delicada entre dependência energética, disputas geopolíticas e fragilidade logística internacional. “Além da cadeia energética, existe toda uma indústria de plásticos e derivados baseada nele. Qualquer bloqueio na logística de produção e distribuição gera escassez e pressão sobre os preços”, afirma.

Boff observa que a concentração da produção mundial nas mãos de poucos países também amplia a instabilidade do mercado. “É um mercado oligopolizado. Os países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) conseguem exercer um controle considerável sobre os preços. Quando uma guerra atinge justamente uma região estratégica para a distribuição global, a tendência natural é a alta”, diz.

O professor avalia ainda que o cenário internacional não apresenta, neste momento, sinais consistentes de estabilização. Segundo ele, interesses políticos e estratégicos mantêm o conflito em movimento mesmo diante de eventuais tentativas diplomáticas.“Não há uma perspectiva clara de encerramento da guerra. Pode existir um recuo dos Estados Unidos e uma regionalização do conflito, mas há atores que não demonstram interesse em uma estabilidade duradoura na região”, analisa.

Na avaliação do docente, o impacto ultrapassa o campo militar e chega diretamente às economias nacionais, sobretudo às que dependem fortemente de importações e cadeias logísticas transcontinentais.

O debate, segundo Boff, também serve de alerta para o Brasil e para a América do Sul em relação à autonomia energética. “O mundo está percebendo novamente a importância da autonomia regional, seja no petróleo, no gás ou em combustíveis alternativos. Os países precisam buscar fontes de energia mais próximas e menos dependentes de grandes deslocamentos oceânicos”, destaca.

Ele lembra que o país reduziu investimentos em refinarias e abriu parte do setor para grupos estrangeiros nos últimos anos, o que, segundo sua análise, aumentou a dependência logística e diminuiu a capacidade de resposta em cenários internacionais de crise.

Além do petróleo, o professor aponta que o debate energético precisa considerar fontes renováveis e alternativas estratégicas. “Energia elétrica, álcool, gás, energia nuclear, renováveis. Tudo isso entra numa discussão maior sobre soberania energética e segurança de abastecimento”, conclui.

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